Chaves é o vilão, segundo feminista da Folha

09:19

Que a morte do comediante Roberto Bolaños, criador e intérprete do menino Chaves, abalaria muitos brasileiros, o país todo sabia. O que ninguém imaginou em nenhum dos 27 estados é que a pessoa que mais demonstraria afetação e lamúria não seria um fã do Chespirito.

Lamúria não. Foi chorume mesmo.

O chorume - termo em alta - é um choro doído, uma espécie de peido de ressentimento, comportamento muito difundido neste século meu e da jornalista Sylvia Colombo, potencial autora da melhor análise cultural de 2014, aos 45 do segundo tempo. E vale a pena o registrar nesse blog o tique nervoso que acometeu Colombo no último dia 29, no jornal Folha de São Paulo.

Irritada com o fato de que no Brasil não há 200 milhões de Sylvias Colombos, a jornalista sentou na frente do computador com uma estratégia em mente: desconstruir Bolaños, esclarecer ao povo inculto e vulgar o que ele deve assistir, e mostrá-lo como refletir (a cara de paisagem para o infinito é indispensável) as mazelas latino-americanas, tal como ela, que, obviamente, conhece uma verdade bem mais verdadeira do que aquela experimentada pelo brasileiro comum.

Então a jornalista, que tem com ponto alto na carreira entrevistas com os grandes democratas José Mujica e Evo Morales, pensou: “vou chegar com os dois pés, tal como aprendi nos livros críticos".



Note as plumas com que vieram as reflexões da jornalista, que orgulhosa dos primeiros parágrafos, comemorou a inédita crítica humanista à obra de Chespirito. Colombo a celebrou como quem descobriu a América. Suspirou e continuou, pois era a hora da aula de Cultura. “Vou mostrar pra esse povão que quer ser cult o que é comédia de verdade”.




Não há nenhuma dúvida que o texto marca o nascimento de uma lenda. A habilidade de Sylvia em empilhar tantas sentenças circunloquiais para dizer apenas que o Chaves prega valores opostos aos que ela acredita é algo único e notável no alto colunismo brasileiro. Ela tem talento pra isso, não se pode negar.



Bêbada de seu próprio brilhantismo, Colombo finaliza seu texto chutando o rabo do povo reacionário, que insiste em não trazer a política pro humor. Todos precisam saber dos crimes de Bolaños, como vender seu trabalho num grande grupo midiático que doa para campanhas eleitorais, e guardar o lucro de uma vida de trabalho em cofres particulares, e não à disposição dos camaradas latino-americanos.


No último parágrafo induz o leitor a pensar que os protestos foram contra o próprio Bolaños. A tática ginasiana foi sua chave de ouro, muito proporcional à qualidade de argumentação. Com um chavão no final - mostrando sua genialidade ao criar um trocadilho implícito, compreensível apenas para os iniciados no humor vanguardista - ela encerra suas reflexões com o sentimento de dever cumprido.


Colombo mostrou de verdade o que é ter um digno e sincero interesse em ajudar a tal entidade "povo". É preciso ter desprezo por tudo que ele consome. Esperemos que ela siga nesse ritmo, mostrando a nós, os ignorantes, o que é humor de verdade. Se seu objetivo era demonstrar que existe coisa muito mais engraçada que Chaves, ninguém pode dizer que ela não foi feliz.

The legend is born. Não, isso é muito "estadunidense". 

Nasció la leyenda. Assim tá melhor.

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